Hugo Jordão Entrevista: A Transformação da Regulação Automotiva e os Bastidores do Mercado de Reparação
Neste episódio do Hugo Jordão Entrevista, o convidado é Israel — perito com quase 30 anos de vivência no chão de oficina e especialista em regulação automotiva.
Ao longo da conversa, fica evidente que não se trata apenas de uma entrevista técnica, mas de um verdadeiro mergulho na transformação de um mercado que evoluiu profundamente com o passar dos anos.
De processos completamente manuais até sistemas digitais altamente eficientes, a trajetória apresentada revela não só mudanças operacionais, mas também uma mudança de mentalidade.
1. A Evolução da Regulação Automotiva
A atividade de regulação automotiva no Brasil começou a se consolidar entre as décadas de 70 e 80.
Naquela época, o cenário era totalmente diferente do atual.
Os processos eram extremamente manuais, lentos e dependiam de uma série de etapas físicas que tornavam toda a operação morosa e pouco eficiente.
O perito — conhecido como inspetor de sinistro — utilizava câmeras Polaroid para registrar os danos dos veículos. Os orçamentos eram feitos em papel carbono, exigindo preenchimento manual e replicação física dos documentos.
Após isso, todo o material era organizado em grandes volumes de papel e entregue diretamente às seguradoras.
Somente esse processo de envio físico podia levar até 72 horas para chegar ao conhecimento da companhia.
Ou seja, o tempo de resposta era longo, a produtividade era limitada e os custos operacionais eram elevados.
Hoje, o cenário mudou completamente.
A realidade atual é digital.
Principalmente após a pandemia, houve uma aceleração significativa na adoção de novas tecnologias.
As perícias passaram a ser realizadas de forma online, utilizando ferramentas como WhatsApp, sistemas de orçamentação em nuvem e inteligência artificial.
Esse movimento trouxe impactos diretos no mercado: redução de custos, aumento de produtividade e maior agilidade nos processos.
2. Oficina vs. Indústria de Reparação
Durante a entrevista, Israel apresenta uma distinção clara entre dois tipos de negócios dentro do setor.
Essa diferença vai além da estrutura — ela reflete mentalidade.
O “Dinossauro”
Esse é o modelo de oficina que parou no tempo.
Normalmente, trata-se de uma gestão familiar, sem processos definidos, marcada por desorganização e, muitas vezes, pela falta de valorização do capital humano.
São negócios que não acompanharam a evolução do mercado e permanecem operando da mesma forma há anos.
A Indústria de Reparação
Por outro lado, existe um novo modelo.
São empresas que entenderam a necessidade de evolução.
Investem em maquinário moderno, adotam gestão baseada em métricas e colocam as pessoas no centro do negócio.
Para Israel, o crescimento de uma empresa está diretamente ligado ao valor humano — ao CPF — e não apenas ao CNPJ.
Essa visão reforça que tecnologia e estrutura são importantes, mas sem pessoas capacitadas e valorizadas, não há crescimento sustentável.
3. O Conceito de “Espremer o Limão” no Sinistro
Um dos pontos mais marcantes da entrevista é a analogia do limão utilizada para explicar a lucratividade no processo de sinistro.
Israel compara o veículo batido a um limão.
A oficina pode simplesmente espremê-lo um pouco e descartá-lo — o que representa perda de dinheiro.
Ou pode espremê-lo até o bagaço.
Essa expressão representa a necessidade de um acompanhamento rigoroso de todo o processo de reparo.
Significa garantir que cada etapa seja devidamente registrada, que cada justificativa técnica seja apresentada com precisão e que cada hora de mão de obra seja valorizada.
O objetivo é assegurar que todos os serviços realizados sejam corretamente remunerados pela seguradora ou associação.
Não se trata de exagero, mas de precisão.
Não é sobre cobrar mais, é sobre cobrar corretamente.
4. Do Orçamentista ao Consultor Técnico
Outro ponto importante abordado é a transformação do papel dentro da oficina.
Segundo Israel, a função tradicional de “orçamentista” deixou de fazer sentido no mercado atual.
O modelo evoluiu.
Hoje, o que o mercado exige é o Consultor Técnico.
Enquanto o orçamentista se limitava a preencher valores, o Consultor Técnico atua de forma estratégica.
Ele é sensível às necessidades do cliente, praticando o conceito de Omotenashi — baseado em hospitalidade e empatia.
Além disso, identifica oportunidades de vendas agregadas e por conveniência, como serviços adicionais que podem ser realizados enquanto o veículo já está parado para o sinistro.
Outro ponto fundamental é o foco.
O Consultor Técnico dedica sua atenção à negociação técnica com o perito.
Evita distrações operacionais que podem fazer com que perca o “fio da meada”.
Esse novo perfil profissional exige mais preparo, mais visão e mais responsabilidade.
5. Ética e Combate à Corrupção
A entrevista também aborda, de forma direta, a questão da corrupção dentro do processo de perícia — conhecida como “toco”.
Israel compartilha sua trajetória pautada na integridade.
Para ele, não existe valor maior do que deitar a cabeça no travesseiro com a consciência limpa.
Ele alerta sobre práticas fraudulentas que ainda existem no mercado, como peritos que solicitam dinheiro para classificar um veículo como perda total.
Esse tipo de comportamento não apenas compromete o processo, mas também prejudica a reputação do profissional e da oficina diante de todo o mercado.
A mensagem é clara: a ética não é opcional.
Ela é fundamental para a construção de uma carreira sólida e respeitada.
Conclusão: Um Mercado em Transformação
A conversa com Israel mostra que o setor de regulação automotiva e reparação passou — e continua passando — por uma transformação profunda.
Mais do que tecnologia, essa mudança exige adaptação, profissionalização e, acima de tudo, posicionamento.
Entre oficinas que ficaram no passado e empresas que se tornaram verdadeiras indústrias de reparação, o mercado segue separando quem evolui de quem permanece estagnado.
E no meio de tudo isso, fica uma certeza:
Os resultados estão diretamente ligados à forma como cada profissional escolhe atuar — seja na técnica, na gestão ou na ética.
Escrito por Hugo Jordão