Existe um tipo de sucesso que é barulhento, visível, “instagramável”. E existe um outro tipo — mais raro, mais profundo e mais duradouro — que começa num lugar onde quase ninguém quer mexer: identidade.
Porque, no fim das contas, a vida não trava só por falta de oportunidade. Ela trava quando a pessoa não sabe quem é, não honra a própria história e tenta construir futuro com uma base rachada.
Em uma entrevista profunda ao podcast de Hugo Jordão, o especialista em comportamento humano e autor do livro “Respeita a Minha História”, Renato Fabote, compartilha como a reconexão com a própria essência foi o gatilho para viver em transbordamento — não apenas para si, mas para servir e ajudar o próximo.
E o mais interessante é que ele não começa com teoria. Ele começa com algo pequeno, cotidiano, quase “bobo”… mas que revela uma verdade enorme.
Identidade pode começar numa sílaba: o nome como símbolo de quem você aceita ser
Renato abre a conversa contando uma história curiosa sobre o próprio sobrenome.
Por anos, ele permitiu que o chamassem de “Fabosse”. Não porque gostava. Mas por cansaço. Cansaço de corrigir. Cansaço de explicar. Cansaço de soletrar.
Até que um dia ele percebeu a profundidade daquilo: quando você aceita ser chamado por um nome errado, você está — sem perceber — treinando sua mente a aceitar uma versão errada de você mesmo.
O sobrenome correto era Fabote (e ele faz questão de afirmar isso com precisão). Essa correção não foi apenas fonética. Foi um marco. Um “clique”.
Como se ele dissesse para si mesmo: “Eu vou honrar quem eu sou. Eu não vou negociar minha identidade por comodidade.”
E é impressionante como isso acontece com muita gente em outras áreas: a pessoa aceita ser diminuída, aceita ser confundida, aceita viver abaixo do que é… só para não ter o trabalho de se posicionar.
Renato mostra que identidade não é um conceito abstrato. É escolha diária. Às vezes começa com uma palavra. Um nome. Um limite.
Honra: o pilar silencioso que sustenta o sucesso verdadeiro
Um dos momentos mais emocionantes da trajetória dele aparece no lançamento do livro. Renato fez questão de honrar suas professoras do ensino fundamental e médio.
Isso parece simples, mas tem um poder enorme: muita gente “vence” e esquece quem ajudou a construir o caminho. Renato faz o contrário: ele reconhece que somos resultado de pessoas que passaram pela nossa vida — mentores, líderes, educadores, referências.
Honrar essas pessoas em vida é um ponto central da visão dele. Não é só gratidão emocional. É reconhecer a influência como algo sagrado: alguém te marcou, te moldou, te segurou quando você ainda estava construindo estrutura.
E aqui entra um princípio forte que ele traz: liderança não se sustenta apenas por posição. Ela se sustenta por conexão.
Ele menciona que a liderança, antes de tentar conduzir por cargo, precisa conquistar primeiro o coração das pessoas. Porque sem coração, não existe adesão real — existe só obediência momentânea.
E quando você entende isso, a honra deixa de ser uma “gentileza” e vira uma chave de maturidade: quem honra, enxerga a própria história com verdade. E quem enxerga com verdade, cresce com raízes.
Bloqueios emocionais: por que adultos travam onde “não faz sentido” travar?
Renato entra então numa parte que pega muita gente em cheio: bloqueios emocionais.
Ele explica que muitos travamentos da vida adulta — financeiros, amorosos, de carreira — têm origem entre 0 e 13 anos.
Nessa fase, eventos de injustiça, dor ou rejeição podem levar a criança a dar um significado negativo à realidade. E esse significado vira uma lente. E a lente vira um padrão.
O adulto cresce… mas a interpretação infantil continua atuando por baixo.
É por isso que, muitas vezes, a pessoa:
sabe o que precisa fazer,
sabe o caminho,
entende a lógica,
tem informação…
…mas não consegue agir.
Renato diferencia duas coisas que parecem próximas, mas são completamente diferentes:
Inteligência cognitiva vs. inteligência emocional
A cognitiva é: “eu sei”. A emocional é: “eu consigo sustentar o que sei, mesmo com medo, carência, insegurança e conflito interno”.
E ele usa uma imagem poderosa: existem “carências invisíveis” como um iceberg — a parte debaixo da água. A pessoa até vê a ponta (o comportamento), mas não vê o volume inteiro (a dor, o trauma, a crença instalada, o significado antigo).
Então ele propõe um caminho: ressignificação.
Não é apagar o passado. É mudar o significado do passado. Porque o que te trava não é só o que aconteceu. É o que você concluiu sobre você mesmo quando aquilo aconteceu.
As quatro fases do aprendizado: como a mudança vira natural (sem virar teatro)
Para quem quer mudar de verdade, Renato apresenta um mapa simples e extremamente prático: os níveis de consciência e competência.
1) Incompetente inconsciente Você não sabe que tem um problema — e não sabe como resolver.
2) Incompetente consciente Você descobre que precisa mudar — mas ainda não tem a habilidade.
3) Competente consciente Você aprende a técnica e precisa se esforçar para executar (como aprender a dirigir: é consciente, exige atenção).
4) Competente inconsciente A mudança vira natural e automática — como escovar os dentes.
Esse mapa é importante porque muita gente desiste no estágio 2 ou 3. A pessoa até descobre a necessidade, até aprende uma técnica… mas se frustra porque ainda não está “fluindo”.
Renato mostra que isso é parte do processo: a mudança real não nasce pronta. Ela vira hábito quando você atravessa repetição, ajuste e persistência.
Perfis comportamentais (DISC): por que tanta gente se machuca tentando “se entender” sem ferramentas
Renato também traz uma chave para relacionamentos e gestão de equipes: perfis comportamentais baseados na teoria de Marston (DISC).
E aqui entra um ponto muito relevante: muita briga não é por maldade. É por diferença de perfil.
Ele descreve quatro perfis:
Dominante: direto, prático, focado em resultado
Influente: comunicativo, persuasivo, voltado para pessoas
Estável: conciliador, calmo, paciente
Analítico: organizado, detalhista, orientado a processos
Entender isso muda o jogo por dois motivos:
líderes montam times complementares, em vez de tentar clonar um tipo de pessoa;
indivíduos passam a compreender forças e pontos de melhoria sem culpa e sem confusão.
Porque quando você não entende perfil, você interpreta o outro como “errado”. Quando entende, você aprende a traduzir.
E tradução é uma forma de amor aplicado: é dizer “eu vejo você como você é” e não como eu queria que você fosse.
A coragem de “queimar a carroça”: decisões que fecham a porta do passado
Por fim, Renato compartilha sua transição do comércio para o comportamento humano como um ato de fé e coragem.
Ele usa uma metáfora forte: “queimar a carroça” / “queimar as pontes”.
É aquela decisão tão definitiva que não existe caminho de volta.
Muita gente diz que quer mudar, mas mantém uma porta aberta “para garantir”. E essa porta aberta vira o lugar onde a dúvida dorme.
Renato propõe o oposto: quando você decide com convicção, você para de negociar com o passado. E aí você enfrenta os “gigantes” da nova fase com outra postura.
Ele conecta isso à fé espiritual — ao que chama de inteligência espiritual — como parte da sustentação para atravessar o desconhecido e viver propósito.
Porque propósito não é um lugar confortável. Propósito é um lugar onde você precisa crescer para caber nele.
Conclusão: identidade não é estética — é estrutura
O grande recado dessa conversa é simples e confrontador:
uma vida plena começa quando você respeita sua história, honra sua identidade e muda o que precisa ser mudado por dentro.
Desde o detalhe de corrigir o nome… até o grande salto de “queimar pontes”, Renato mostra que transbordamento não é sorte. É construção.
E construção começa com a pergunta que quase ninguém quer responder com honestidade:
Quem eu sou — de verdade — quando ninguém está olhando?
Escrito por Hugo Jordão