Hugo Jordão

Oratória Jurídica e o Tribunal do Júri: Lições do Dr. Cristiano para Falar com Autoridade

05/02/2026 Hugo Jordão

No mundo jurídico, muita gente acredita que vencer depende de conhecer leis, artigos, prazos e jurisprudências. Tudo isso importa — mas, segundo o Dr. Cristiano, existe um instrumento que decide destinos com uma força silenciosa: a comunicação.

Porque no tribunal, na audiência, no júri, na conversa com o cliente e até na mesa de negociação, o que muda o rumo das coisas não é apenas o que é verdadeiro — é o que é compreendido, sentido e aceito.

Em uma entrevista profunda concedida a Hugo Jordão, o Dr. Cristiano, advogado criminalista com 36 anos de carreira e conselheiro da OAB SP, compartilha como a oratória transformou sua vida e por que ela é o “espelho” de um bom advogado. A metáfora é forte por um motivo: você pode até ter conhecimento, mas se não souber refletir isso em palavras com clareza e presença… seu potencial não aparece.

E o que torna essa conversa ainda mais marcante é que ela não começa com título, cargo ou fama. Começa com um menino observando.

De office boy ao conselho da OAB: quando o olhar atento muda o destino

O despertar do Dr. Cristiano para o Direito não veio de uma apostila. Veio da curiosidade.

Aos 14 anos, trabalhando como office boy, ele passava diante do Tribunal de Justiça de São Paulo. E, em vez de apenas seguir o caminho, ele fazia algo que muita gente não faria: entrava para assistir.

Ele queria ver os grandes oradores da época — como o célebre Troncoso Perez. Mas repara no detalhe: não era a lei que encantava primeiro. Era o que a lei ganhava quando atravessava a boca de um bom comunicador: elegância, autoridade, impacto.

Aquele menino não estava apenas assistindo a sessões. Ele estava assistindo ao poder da palavra — e entendendo, na prática, que a comunicação pode construir (ou destruir) futuros.

E essa história fica ainda mais forte quando ele narra um episódio de superação que parece roteiro de filme, mas é vida real:

No início da carreira, um antigo chefe duvidou dele e chegou a dizer que ele nunca seria advogado. Dr. Cristiano não só se formou, como anos depois foi procurado pelo mesmo homem — para defendê-lo em um processo criminal complexo. E mais: venceu o caso.

Isso não é só “dar a volta por cima”. É mostrar que o tempo expõe o que a persistência constrói. E que, no Direito, competência + comunicação podem reposicionar alguém de forma definitiva.

O Tribunal do Júri: a instituição da verdade (e não o palco da mentira)

Quem olha de fora, muitas vezes imagina o tribunal do júri como um lugar de teatro — cheio de encenações, discursos e truques. Dr. Cristiano faz questão de corrigir essa imagem: o júri, para ele, é uma instituição da verdade.

Ele explica que se trata de uma das instituições mais antigas do mundo, com raízes na Grécia Antiga, e desmistifica um ponto que gera confusão (e até preconceito): o advogado criminalista não está “defendendo crime”. Ele está defendendo direitos.

Defesa de direitos, não de crimes: O advogado defende direitos subjetivos garantidos pela Constituição. Isso muda a visão moralista e simplista. O trabalho não é “passar pano”. É garantir que a lei seja aplicada com justiça, com respeito ao devido processo e aos limites do Estado.

E aqui entra o lado técnico que ele traz, mas sempre com intenção de ensinar:

A técnica do júri no Brasil: No Brasil, o conselho de sentença é formado por 7 jurados e a decisão ocorre por maioria — não é necessário unanimidade. Isso é diferente do sistema americano (12 jurados e unanimidade), que costuma povoar o imaginário por causa de filmes.

Ou seja: até o modelo de decisão muda — e, com ele, muda também a forma de argumentar. Um bom advogado precisa entender o sistema e adaptar o discurso ao funcionamento real do tribunal.

O caso Favela Naval: a palavra no centro de um marco histórico

Entre os momentos mais marcantes da carreira, Dr. Cristiano cita sua atuação como assistente de acusação no caso da Favela Naval, em 1997.

Esse episódio se tornou um marco que mudou a forma de abordagem da Polícia Militar em Diadema e teve repercussão internacional.

E por que isso importa dentro de um post sobre comunicação?

Porque esse caso lembra uma coisa essencial: existem momentos em que a palavra não é apenas defesa ou acusação — ela vira instrumento de responsabilização, de memória, de mudança social.

Em certos processos, comunicar bem não é “vencer debate”. É ajudar a construir justiça.

“Falar é fácil”: quando oratória deixa de ser dom e vira disciplina

O título do livro dele já é uma provocação: “Falar é Fácil: Descubra o Seu Potencial”.

Não é que falar seja simples no sentido de “não dá medo”. É que falar não é uma magia reservada a poucos. Para ele, oratória não é dom místico — é exercício constante.

E para sustentar essa tese, ele cita um exemplo clássico e poderoso: Demóstenes, grande orador grego que superou a gagueira e entrou para a história.

A mensagem por trás disso é direta: você não precisa nascer pronto. Você precisa construir.

Mas ele coloca um filtro fundamental: a fala não pode ser vazia. Ela precisa de:

  • propósito

  • clareza

  • verdade

Ele traz uma frase que funciona como régua moral e técnica ao mesmo tempo: “Quando falamos a verdade, a verdade salta aos olhos.”

No Direito, isso tem um peso enorme — porque o advogado pode até dominar doutrina e jurisprudência, mas se não souber traduzir isso, principalmente no júri, ele perde o ponto central: o jurado é cidadão comum.

E aqui está uma habilidade que ele destaca como indispensável: traduzir o complexo para o simples.

Um jurado não decide com base em termos técnicos. Ele decide com base no que consegue entender e no que consegue sentir como coerente. Por isso, oratória jurídica não é “falar difícil”. É ser claro sem ser raso.

Oratória como espelho: o advogado é o que ele consegue expressar

Quando Dr. Cristiano diz que a oratória é o “espelho” de um bom advogado, ele está dizendo algo profundo:

  • você pode conhecer a lei,

  • pode ter razão,

  • pode ter um caso forte…

Mas se não conseguir organizar o argumento, construir lógica, ser compreendido e convencer, a sua capacidade fica escondida.

No começo da carreira, isso é ainda mais determinante. Porque o advogado iniciante, muitas vezes, tem conhecimento, mas não tem repertório de comunicação. E no tribunal, conhecimento sem comunicação vira um livro fechado.

Legado e espiritualidade: “no princípio era o verbo”

Além da atuação jurídica, Dr. Cristiano é presbítero e enxerga na comunicação um princípio divino: “no princípio era o verbo.”

Aqui a conversa vai para um lugar de legado. O objetivo dele não é apenas “ganhar causas”. É deixar para o filho um legado de:

  • honestidade

  • integridade

  • excelência

Ele acredita que tudo o que se semeia com amor e excelência se colhe como resultado natural.

E isso fecha a entrevista com uma ideia forte: oratória não é só técnica de convencimento — é uma extensão do caráter. Porque a palavra pode ser usada para confundir… ou para esclarecer. Para manipular… ou para servir. Para vencer por vaidade… ou para fazer justiça.

Escrito por Hugo Jordão