Se tem um assunto que vai separar empresas que crescem com estratégia de empresas que sobrevivem no susto nos próximos anos, esse assunto é: Reforma Tributária.
E não é exagero dizer que ela será o tema mais desafiador para o empresário brasileiro a partir de 2026. Porque aqui não estamos falando de uma “mudancinha” em imposto. Estamos falando de uma troca de motor no carro em movimento.
Em uma conversa muito esclarecedora no podcast de Hugo Jordão, a contadora e especialista em gestão Amanda Pipino tirou o tema do campo do “caos legislativo” e colocou em algo que o empresário entende: impacto real no caixa, risco real no preço, decisão real no modelo de negócio.
Ela não vende pânico. Ela entrega um roteiro de sobrevivência.
E tudo começa de um jeito interessante: antes de dominar impostos, Amanda aprendeu algo ainda mais importante para atravessar tempos complexos: resiliência e solução de problemas.
Da feira de malha ao mundo da gestão: o tipo de base que o empreendedor respeita
A história dela não começa no escritório com ar-condicionado. Começa cedo — muito cedo.
Aos 12 anos, Amanda já trabalhava com a mãe em feiras de malha, enfrentando jornadas longas, de 12 horas. Isso forma um tipo de mentalidade que não se aprende em slide: você aprende olhando para dificuldade e dizendo “ok, como eu resolvo isso?”.
E aqui está um ponto-chave do que ela defende: resolver problemas é o maior diferencial entre um executor e um empresário de sucesso.
Depois de anos como funcionária, a virada veio com um “empurrão” do destino: uma demissão após quebrar o tornozelo. A cena é quase simbólica — quando o corpo te obriga a parar, a vida às vezes te obriga a decidir.
Foi assim que ela fundou a Realizar, e hoje o foco dela é muito específico (e muito necessário): gestão financeira estratégica para pequenas e médias empresas. Ou seja, ela não fala só “do imposto”. Ela fala do imposto como parte do sistema que sustenta (ou derruba) a empresa.
E aí chegamos no coração do problema: o que muda, de verdade, na Reforma.
O coração da Reforma: CBS, IBS e o IVA Dual (a troca estrutural)
A mudança central aqui é estrutural: saem tributos antigos e entra um novo desenho com IVA Dual.
Pode parecer um termo técnico, mas o efeito dele é muito prático: o jeito de calcular, recolher e competir muda.
A Amanda destaca os dois pilares:
CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): substitui PIS e Cofins (nível federal)
IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): substitui ICMS e ISS (nível estadual e municipal)
Ou seja: não é só “um imposto novo”. É uma reorganização de várias camadas que hoje se cruzam e se confundem.
E o que assusta o empresário não é apenas o nome. É o número.
A alíquota estimada e o “soco” no setor de serviços
Pelo que foi apresentado na conversa, espera-se que a soma das alíquotas chegue perto de 26,5%.
E aqui entra a parte que dói para muita empresa: setor de serviços e locadoras podem sentir esse impacto de forma mais agressiva, porque antes operavam com alíquotas bem menores.
Tradução para o mundo real:
se você não ajustar precificação, margem e modelo, você pode continuar vendendo…
só que vendendo mais e sobrando menos (ou até “vendendo no prejuízo” sem perceber).
É o tipo de mudança que quebra empresa silenciosamente, porque o volume de vendas pode enganar enquanto a margem evapora.
O fim da “folga” do imposto: a arrecadação no pagamento e o banco como retentor
Agora vem uma virada que, para muita empresa, vai ser o choque do século: o imposto deixa de ser algo “para pagar depois” e passa a ser algo “tirado na hora”.
Hoje, o fluxo costuma ser assim:
você emite a nota
recebe do cliente
paga o imposto no mês seguinte
Muita empresa (especialmente pequena e média) acaba usando esse “intervalo” como um respiro de caixa — às vezes como capital de giro temporário, às vezes como “jeitinho de sobreviver” quando o mês aperta.
Com a Reforma, o modelo apresentado muda drasticamente:
o imposto será recolhido no momento do pagamento
se o cliente pagar via Pix, o banco age como retentor
o banco repassa o percentual ao governo instantaneamente
e você recebe apenas o líquido
Isso significa uma coisa muito simples e muito séria:
acabou a possibilidade de “segurar” o imposto no caixa por algumas semanas.
Não é mais “vou me organizar até o fim do mês”. É “o dinheiro nem passa pela sua mão”.
Para empresas que vivem no limite, isso muda o jogo de capital de giro, de fluxo de caixa, de planejamento e até de sobrevivência.
O dilema do Simples Nacional em 2026: continuar, mudar, ou perder mercado?
Aqui a Amanda coloca o dedo em uma ferida que vai virar pauta diária em 2026: o que fazer com o Simples Nacional.
E ela trata isso com uma visão estratégica, não ideológica. Ela mostra que a resposta depende de para quem você vende.
1) Se você é B2C (vende para pessoa física)
Quem vende para consumidor final pode permanecer no modelo atual sem grandes impactos imediatos.
Ou seja: para esse perfil, o Simples continua sendo uma escolha que pode fazer sentido — pelo menos no curto prazo.
2) Se você é B2B (vende para outras empresas)
Aqui a conversa muda totalmente.
Se o seu cliente é PJ, ele geralmente quer tomar crédito tributário. E para ele tomar crédito, a sua empresa precisa permitir isso no formato correto.
Então aparece o “dilema”:
empresas do Simples, para manter competitividade no B2B, podem ter que optar por recolher IBS e CBS “por fora” do guia único
isso aumenta a carga, mas mantém a empresa jogando no mercado corporativo
É como escolher entre duas dores:
ficar no Simples “padrão” e virar menos atrativo para clientes PJ ou
pagar mais (recolher por fora) para manter o cliente corporativo comprando de você
E esse ponto é crítico, porque não é só “imposto”. É posicionamento de mercado.
Em 2026, muita empresa vai descobrir que “estar no Simples” não é sinônimo de “estar competitivo”. Vai depender do seu público.
Duas bombas no radar: dividendos e fiscalização por CPF
A Amanda também chama atenção para duas mudanças que, na prática, mexem direto com o bolso do empresário e com o risco de desenquadramento.
Dividendos: quando o lucro volta a ser “mordido” na pessoa física
Ela alerta que lucros acima de R$ 50.000,00 mensais podem sofrer retenção de até 10% na fonte.
E o ponto sensível aqui é a sensação de bitributação, porque a empresa já pagou imposto sobre o lucro — e ainda assim pode existir retenção quando isso chega no sócio.
Para o empresário, isso é estratégico: muda a lógica de retirada, planejamento e distribuição.
CPF no alvo: o sócio vira o “centro” do risco
Aqui talvez esteja um dos alertas mais fortes:
A fiscalização não olha mais apenas para o CNPJ. Ela passa a olhar com peso para o CPF.
Na prática, o texto traz o seguinte cenário:
se o sócio tiver débitos em qualquer empresa ligada ao CPF dele,
ele pode ser desenquadrado do Simples em todas as outras operações
Ou seja: o risco “contamina”.
Você pode ter uma empresa certinha, mas se existir problema em outra vinculada ao mesmo CPF, você entra no efeito dominó.
E isso muda a forma como o empresário precisa enxergar o próprio “ecossistema”: não é mais cada empresa isolada. É o CPF como eixo.
O que esse episódio deixa de recado para 2026
A mensagem final (mesmo quando não é dita literalmente) é bem clara:
a Reforma Tributária não vai “pegar” empresas despreparadas só por causa de imposto. Ela vai pegar por causa de gestão fraca.
Porque quem não tem fluxo de caixa bem desenhado, precificação revisada, clareza de margem, planejamento de retirada, estrutura de impostos e leitura de perfil (B2B/B2C)… vai ser surpreendido.
E a surpresa, para empresa, quase sempre custa caro.
Se tem uma palavra que resume o que a Amanda entrega nessa conversa é: roteiro. Tirar o tema da confusão e transformar em caminhos.
2026 não vai premiar quem sabe “um pouco”. Vai premiar quem se posicionou antes.
Escrito por Hugo Jordão