Hugo Jordão

Segredos para uma Comunicação Eficaz em 2026: Uma Entrevista com Matheus Correa

01/02/2026 Hugo Jordão

Tem gente que acha que comunicação é “saber falar bonito”. Outros tratam como um checklist: postura, dicção, roupa certa, slide alinhado, tom de voz “de palco”. Só que, na prática, comunicação é outra coisa.

Comunicação é poder.

E não um poder abstrato. Um poder real — do tipo que muda a atmosfera de uma sala, abre portas, destrava oportunidades, cria conexões, restaura relações, inspira decisões e até reposiciona uma carreira inteira.

Foi exatamente isso que o jornalista Matheus Correa deixou claro em uma entrevista intensa e honesta ao podcast “De Frente com o Jordão”: em 2026, oratória não será um “plus” — será diferencial competitivo. Não porque todo mundo vai virar palestrante, mas porque quem sabe se comunicar vai se destacar em qualquer função: liderança, marketing, vendas, gestão, atendimento, docência, ministério, conteúdo… tudo.

E o que torna essa conversa diferente é que Matheus não fala sobre técnica como o centro. Ele fala sobre identidade como a raiz — e técnica como consequência.

A gênese de um comunicador: quando a oratória nasce antes da profissão

A trajetória do Matheus não começa num curso. Começa num cenário comum, quase doméstico, mas cheio de estímulos.

Ele lembra das tardes na casa da avó, diante de uma televisão de tubo (daquelas grandes, que faziam barulho e até “estalavam” quando ligava). Enquanto muita gente se entretinha com qualquer coisa, ele consumia jornalismo como quem observa um laboratório: prestava atenção não só na notícia, mas no comportamento do comunicador.

A grande referência: Carlos Tramontina, no SPTV. Matheus não analisava somente o que era dito; ele observava como era dito — a postura, a segurança, o ritmo, a autoridade calma. Isso vai construindo um repertório.

E, dentro de casa, havia outra fonte: o pai, advogado, muito articulado, que trazia uma camada ainda mais profunda, quase espiritual: “no princípio era o verbo”. Ou seja: palavra não é enfeite. Palavra é estrutura. Palavra é criação. Palavra é direção.

Esse contraste (o comunicador na TV + o comunicador em casa) gerou uma mistura poderosa: repertório e convicção.

Na escola, isso apareceu cedo. Enquanto alguns colegas se dedicavam ao conteúdo técnico do trabalho, Matheus percebeu uma dinâmica que muita gente ignora até hoje: quem sustenta a mensagem com clareza e presença geralmente “ganha” a audiência.

Ele chama isso de “esforço e planejamento”: ele assumia o papel de apresentador. O conteúdo podia ser o mesmo, mas a entrega era diferente — e o resultado também: professores cativados, notas máximas, destaque.

O ponto não é “manipular”. O ponto é entender que, muitas vezes, a mensagem não chega por falta de informação — ela não chega por falta de forma.

A metáfora do canhão: comunicação como arma (e a responsabilidade do alvo)

Em um dos trechos mais marcantes, Matheus traz um aprendizado do seu primeiro emprego na TV, em Santo André. Um cinegrafista veterano, com um olhar já calejado de bastidores, disse algo que não sai da cabeça:

“Isso aqui é uma arma. Você aponta pro rosto de alguém e vê reação de medo, alegria, autoridade.”

A câmera, para ele, era um canhão.

E Matheus amplia a metáfora: comunicação é uma arma, não porque deve ferir, mas porque gera impacto imediato. A palavra não passa “neutra” por alguém. Ela mexe. Ela ativa coisas. Ela dispara interpretações, emoções e memórias.

A pergunta, então, não é se você tem poder de comunicação. A pergunta é: para onde você aponta esse canhão?

Em 2026, ele acredita que o diferencial não será apenas quem fala bem. Vai ser quem direciona bem.

Matheus escolheu direcionar para o ensino — para ajudar pessoas a se conectarem e fazer com que a mensagem atinja o coração, não só os ouvidos. Isso muda tudo, porque existe uma diferença enorme entre:

  • falar “correto” e ser esquecido;

  • falar “verdadeiro” e deixar marca.

Por que tanta gente trava? A raiz não é técnica — é identidade

Todo mundo já viu isso: uma pessoa excelente, inteligente, competente, mas quando precisa falar em público, gravar vídeo ou apresentar uma ideia… trava.

Matheus não coloca a culpa em timidez. Ele não reduz a “falta de prática”. Ele vai mais fundo:

a causa principal é falta de identidade.

Quando você não sabe quem é, sua fala vira uma negociação constante com o olhar do outro. Você mede frases. Você tenta agradar. Você tenta parecer. Você tenta performar.

E aí nasce o medo mais comum de todos: medo da reprovação.

Porque, quando sua identidade é frágil, a opinião alheia vira sentença. E você fala como quem está pedindo licença para existir.

Matheus fundamenta identidade numa visão muito clara: o ser humano é “imagem e semelhança do Todo-Poderoso”. A ideia é simples e profunda: se o Criador cria realidades com a palavra, existe algo na nossa fala que também é criativo, construtivo, direcional.

Isso muda a postura. Não por ego. Mas por convicção.

E daí vem uma dica prática que é ouro para quem grava vídeo ou fala com câmera:

olhe para a lente e imagine o rosto de alguém que te ama incondicionalmente.

Por quê isso funciona? Porque o cérebro precisa de um destinatário humano. A câmera é fria, estranha, julgadora — mas quando você “humaniza” a lente, você tira o peso do desconhecido e passa a falar para alguém que te aceita. E aceitação é o oposto do medo de reprovação.

Mensagem vs. performance: a era que impressiona… mas não transforma

Aqui Matheus toca num ponto que muita gente sente, mas poucos falam com coragem: vivemos a era da performance.

As pessoas passam horas:

  • na roupa,

  • no cenário,

  • no roteiro,

  • no “jeito certo”,

  • na estética impecável,

  • no tom “profissional”.

E, às vezes, entregam um conteúdo vazio.

Matheus faz uma crítica direta: a performance pode virar inimiga da mensagem.

E ele dá um exemplo bem real: quantas vezes você saiu de uma palestra pensando “uau, que comunicador”, mas no dia seguinte não lembrava de nada do que foi dito?

O que fica no coração não é o brilho. É a verdade.

Ele usa uma expressão forte: o comunicador verdadeiro é aquele que consegue “tatuar” o âmago da mensagem no coração do outro.

E isso não depende de dicção perfeita. Depende de convicção.

Ele chega a citar algo que quebra um mito comum: mesmo que você erre tecnicamente, sua mensagem pode ser poderosa. Ele menciona, por exemplo, alguém falar “pobrema” em vez de “problema”. Pode não ser o ideal — mas não é isso que define o impacto. Se existe verdade, identidade e intenção, a mensagem atravessa.

Em outras palavras: a audiência perdoa imperfeição; ela não suporta vazio.

Estado de presença: o que diferencia quem “fala” de quem “conecta”

Outro ponto que ele levanta é o “estado de presença”.

Tem gente que fala, mas está ausente. Fala no automático. Fala para terminar logo. Fala com medo. Fala para agradar. Fala para provar alguma coisa.

Presença é o oposto disso. Presença é quando você está “inteiro” na conversa: corpo e alma.

E para treinar isso, ele recomenda um exercício simples, quase desconfortável para alguns, mas muito eficaz: o espelho.

A proposta: todo dia, encarar a própria imagem — se possível, numa postura “de super-herói”. Não por teatro, mas para produzir um tipo de aceitação: aceitar seu rosto, seu corpo, suas feições, seu jeito.

Porque muita gente trava em público por um motivo bem íntimo: ela não se suporta no privado.

O espelho, nesse sentido, vira prática de reconciliação consigo mesmo. E quem se reconcilia consigo, fala com mais leveza.

Conclusão: “Just do it” — não espere o momento perfeito

O conselho final do Matheus é bem direto, com cara de Nike mesmo:

Apenas faça.

Se você tem uma verdade dentro de si, não espere perfeição técnica. Não espere a câmera ideal. Não espere a “voz perfeita”. Não espere o ambiente perfeito. Não espere sumir o medo.

Faça com medo. Faça tremendo. Faça aprendendo.

Porque a construção da comunicação não acontece antes da prática. Ela acontece por causa da prática.

E, principalmente: o mundo não precisa de mais performance. Precisa de mensagens autênticas, comunicadas com identidade, presença e verdade.

Escrito por Hugo Jordão